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Maior feira de tecnologia trará sextoys enquanto tenta frear o sexismo

Felipe Germano

02/08/2019 04h00

A CES (Consumer Eletronic Show) é a maior feira de tecnologia do planeta. Simples assim. Considerada a Meca dos amantes de gadgets, ela atrai gente do mundo todo para anualmente se reunirem em Las Vegas. É lá que grandes empresas mostram seus principais lançamentos, dão um gostinho de quais são as apostas para aquele ano e, sobretudo, serve de termômetro para entendermos como a tecnologia funcionará no nosso dia a dia em um período curto de tempo. É praticamente uma exibição Black Mirror na vida real.

Tudo muito lindo, tudo muito legal. Mas em 2019 vibrações negativas atingiram o evento. A designer Lora DiCarlo levou à feira seu primeiro produto: o vibrador Osé Robotic Massager, um aparelho que estimula tanto o clitóris quanto o ponto G simultaneamente – sem que a usuária tenha que usar as mãos. A ideia foi tão bem recebida que DiCarlo foi premiada na competição oficial do evento, a Inovation Awards, na categoria Robôs e Drones. Só que a festa durou pouco.

Horas depois, a organização voltou atrás, pegou o prêmio de volta e disse que o vibrador de Lora não se encaixava nem na categoria em que ganhou e nem em nenhuma outra. Estava de fora da competição.

Osé

DiCarlo reclamou, a imprensa e frequentadores do evento contestaram a decisão, mas nada adiantou. Prêmio retirado.

Aparentemente, no entanto, o choro não foi à toa. A organização da CES sentiu a pressão e anunciou que a partir do ano que vem, o evento terá uma parte dedicada a sextoys.

"A CES 2020 incluirá produtos eróticos com base em tecnologia, em um esquema de teste para o próximo ano", afirmou a organização, em comunicado. "[Os produtos] serão incluídos na categoria de 'Saúde de Bem Estar'."

A novidade ainda veio acompanhada de outro anúncio importante: a sexualização de staffs será banida. A organização não quer mulheres seminuas em estandes para ajudar a vender produtos – prática comum em eventos de carros e tecnologia. "Roupas que revelam pele em excesso, ou que se moldam ao redor da genitália, não devem ser usadas", afirma a organização, em comunicado.

O twitter oficial do evento agradeceu DiCarlo, afirmando que a designer ajudou na formulação das novas políticas. Ela por sua vez, comemorou. "Sextech tem comandado o mercado e a tecnologia há décadas, sem sinal de que vai parar. É importante reconhecermos o espaço desse tipo de produto na saúde humana, e no potencial para inovação", afirmou.

A sexualização da CES é um problema antigo, que remonta aos anos 70 pelo menos. Afinal, Las Vegas também é conhecida por ser um pólo de casas de strip tease e serviços de acompanhantes. Em 2017, eclodiu o movimento feminista #MeToo contra o assédio e intimidação sexual na indústria do cinema, e depois isso migrou um pouco para a tecnologia, como ocorreu na Uber, só para ficar em um exemplo.

Mas na CES de 2018, a repórter Avery Hartmans, do Business Insider, fez um relato da feira para conferir se o #MeToo teria algum impacto por lá. No primeiro evento, viu grupos de jovens mulheres em uniformes de líderes de torcida trabalhando, e nada de homens. No primeiro estande do showroom, na manhã seguinte, havia mulheres de vestidos azuis brilhantes, apertados, fora do ombro e saltos altos. Fora as bizarras strippers robôs.

Os organizadores da CES deixaram claro que as novas mudanças não significam que teremos bullets espalhados pela feira. Mas inovações que misturam tecnologia e prazer estão com as portas abertas. "Estamos procurando por tecnologias realmente inovadoras, que mudam o mercado de sex-tech", afirmou à imprensa Karen Chupka, vice presidente do CES. "O melhor que posso dizer é que não queremos ver prateleiras e prateleiras com vibradores convencionais", completou.

Aparentemente, a maior feira de tecnologia do mundo vai ser ainda maior em 2020.

Sobre o Autor

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre Comportamento Humano, Saúde, Tecnologia e Cultura Pop. Para encontrar as boas histórias que procura contar, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Trabalhou nas redações da rádio Jovem Pan, site Elástica, Revista Época e Revista Superinteressante - e agora colabora com o UOL.

Sobre o Blog

Sexo é o que há de mais antigo nesse planeta, e tecnologia nos traz o que há de mais moderno. Mesmo sem saber quem foi nosso antepassado mais antigo, dá para cravar: ele transava. Mas se engana quem acha que o sexo não mudou nada desde a primeira vez. A tecnologia evoluiu, e com ela nossos hábitos na cama (ou no chão, ou no celular...). Mas dá para juntar tudo, e divertir-se. Muito prazer, esse é o Sexting.