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Mostra seus bytes: quem é Melody, stripper digital com mais de 150 mil fãs

Felipe Germano

06/03/2020 04h00

"Todas as religiões deveriam ser canceladas. Nenhum paraíso pode ser melhor que isso", diz um dos 30 mil usuários que vê Melody tirar a roupa, ao vivo, no site de webcams eróticas Chaturbate. A modelo se inclina para a câmera, em busca de ângulos cada vez mais explícitos, e a trilha sonora corresponde: um som metálico é repetido dezenas de vezes por minuto, indicando que os espectadores estão não só assistindo, como também estão transferindo dinheiro para a conta da estrela daquele show. Uma cena que já se repete há pelo menos 20 anos (quando sites voltados para camgirls, como o LiveJasmine e o CAM4, surgiram). A diferença aqui é só uma: a modelo nua nem existe. Melody é totalmente feita com computação gráfica. Para seus fãs, no entanto, isso não é um problema; é uma qualidade.

Melody adultera sua data de nascimento. Como sites pornôs não aceitam nenhum conteúdo produzido por menores de idade, seus cadastros sempre cravam que ela nasceu em 2000. Na realidade, a modelo surgiu há menos de um ano.

Criada em 7 de julho de 2019, começou apenas como uma conta no Twitter, que registrou todo seu desenvolvimento: das artes conceituais até às primeiras tentativas de moldá-la digitalmente. Tudo sempre narrado em primeira pessoa, como se a própria modelo tuitasse. Timidamente a conta despertou a atenção de curiosos. Depois dos rascunhos vieram as primeiras renderizações, alguns vídeos. Até que, em 5 de fevereiro, as coisas tomaram outra proporção: Melody fez seu primeiro show ao vivo.

O sucesso foi tão grande quanto imediato. Em menos de um mês a personagem conseguiu 80 mil seguidores no Chaturbate. A conta do Twitter já acumula mais de 150 mil pessoas que acompanham as postagens da robô. Mesmo em plataformas com mais restrições a conteúdo adulto, como o Youtube, Melody se consagrou com mais de 90 mil inscritos no canal onde ela faz coreografias de K-pop e fala sobre sexualidade.

Ela, robô?

Mas afinal, como funciona a Melody? A equipe por trás da modelo insiste em uma trama de ficção científica. Em seus canais oficiais (e até em entrevistas) quem aparece falando é sempre a modelo, que jura ser autônoma. Pura fantasia.

 

Na vida real, o designer identificado como Digitrevx é quem leva os créditos pelo modelo da personagem. Também sabe-se que movimentos complexos, como uma dança ou uma pose erótica, são pré-programados. O pulo do gato, no entanto, está não só na voz como nos braços da modelo.

Para funcionar ao vivo, Melody utiliza uma tecnologia chamada Unity. Trata-se de uma ferramenta extremamente popular entre os criadores de games. Na prática, alguém, de carne e osso é responsável por dublar e mexer os membros superiores da modelo. Tudo é captado e transformado, em tempo real, na personagem.

Fã de carteirinha (digital)

Quem é essa pessoa, no entanto, é uma informação que talvez não seja revelada tão cedo. Até porque os fãs de Melody não querem saber.

Melody não é uma camgirl de sucesso apesar de ser um desenho. Ela é uma camgirl de sucesso por ser um desenho. Seus fãs são bastante vocais em relação a isso. Alguns postam prints de momentos em que seus olhos visivelmente sofrem um bug, e ficam com tamanhos diferentes. Os textos que acompanham essas imagens não são reclamações, mas aclamações. Eles gostam desses erros porque lembram que aquele modelo ali tirando a roupa não é real.

A atração por personagens animados não é novidade no mundo pornô. Nem aqui. Entre os brasileiros, "hentai" (desenhos japoneses eróticos) foi o segundo termo mais procurado no Pornhub em 2019. Ficou atrás só de, bem, "Brasil".

Nesses casos, lembrar que existe uma pessoa por trás do desenho é mais broxante do que excitante.

Sobre o Autor

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre Comportamento Humano, Saúde, Tecnologia e Cultura Pop. Para encontrar as boas histórias que procura contar, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Trabalhou nas redações da rádio Jovem Pan, site Elástica, Revista Época e Revista Superinteressante - e agora colabora com o UOL.

Sobre o Blog

Sexo é o que há de mais antigo nesse planeta, e tecnologia nos traz o que há de mais moderno. Mesmo sem saber quem foi nosso antepassado mais antigo, dá para cravar: ele transava. Mas se engana quem acha que o sexo não mudou nada desde a primeira vez. A tecnologia evoluiu, e com ela nossos hábitos na cama (ou no chão, ou no celular...). Mas dá para juntar tudo, e divertir-se. Muito prazer, esse é o Sexting.