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Tédio e tesão na quarentena: como o coronavírus inspirou concursos de nudes

Felipe Germano

27/03/2020 04h00

Imagens: bakar015 e Freepik

"E aí gente, o que vocês acham de fazer um campeonato de nudes nessa quarentena?" Foi a pergunta que quem seguia a percussionista mineira Sandra Leão recebeu nos stories durante o último sábado. A questão vinha acompanhada: uma foto da própria autora, seminua. Começava a competição. "Fui escovar os dentes, me olhei no espelho e tirei a foto. Era só uma piada, achei que nem ia para frente… mas aí comecei a receber as imagens".

E recebeu mesmo. De lá para cá foram 2.300 fotografias, divulgadas para as mais de 3 mil pessoas que acompanham a disputa.

Com muita gente e pouca roupa, o cenário das nudes consensualmente públicas tem se tornado uma forma de sobrevivência sexual na pandemia. E quem está dizendo isso não sou eu, blogueiro-do-uol-com-foto-sorridente, são instituições que realmente importam – como a prefeitura de Nova York. Em comunicado, os regentes da Big Apple aconselharam seus moradores: "Se você costuma encontrar parceiros sexuais online, ou ganha a vida fazendo sexo, considere dar um tempo nos encontros ao vivo. Encontros por vídeo, mensagens eróticas e salas de bate papo podem ser uma opção", disseram no texto.

"Eu acredito que a ideia teria força independente da quarentena, porque tudo que envolve corpo já tem muito impacto – mas acho que o isolamento ajudou MUITO", conta Sandra. "O pessoal teve que adiar dates, quem namora muitas vezes acabou longe do parceiro e, mesmo para quem não está passando por isso, gera entretenimento", completa.

Prova maior para esses argumentos é o Twitter. Dentre os grandões das redes sociais (Youtube, Facebook e Instagram) é, de longe, o mais tranquilo em relação à nudez. Mamilos, bundas e pênis não ferem as regras de convivência do passarinho azul. Não à toa, conforme a quarentena começou, junto com a abstinência sexual, o microblog se tornou um polo espontâneo de conteúdo sexual.

Desde que o isolamento teve início, os usuários da rede começaram a criar concursos de nudes. Simples assim, sem ninguém organizar. #PeitoAwards, por exemplo, acumulou mais de 12 mil tweets nos últimos dias. #RabaAwards bateu superou os 17 mil. O menos delicado #XotaAwards chegou em 8k. O vencedor absoluto de popularidade, no entanto, é o único que contava com alguma estrutura: foram mais de 35 mil postagens com a hashtag #PintoAwards.

"O concurso começou lá em 2016 como uma brincadeira no meu perfil pessoal. Disse que ia avaliar nudes e, realmente, recebi imagens. No ano seguinte, resolvi organizar categorias e postar os candidatos. Bombou. Entrou no Trending Topics", conta o criador que só se identifica como "Luiz". Hoje o perfil do evento conta com 249 mil seguidores.

Conforme os anos foram passando, a estrutura da brincadeira foi ganhando detalhes. "Eu cuido de tudo sozinho, dá um trabalhão, faço cronograma, penso identidade visual, abro inscrições, respondo cada mensagem". Com fotos, os inscritos ainda devem provar que são maiores de idade e que as nudes estão sendo tiradas especificamente para essa disputa, evitando o compartilhamento de fotos  de terceiros. Algumas regras novas podem também aparecer, dependendo da edição. "Nesse ano também exigi que os participantes declarassem que não votaram no Bolsonaro", afirma Luiz.

Tanto no "Festival Nude Casa" (competição de Sandra), quanto no #PintoAwards, o que vale não é uma beleza padronizada. Os concursos elegem o que lhes convém. "Vou ter categorias como 'Nude quarentena', que é da galera agora, ou uma chamada 'artchy', para imagens mais artísticas", conta Sandra.

O #PintoAwards, por sua vez, avalia por exemplo o "Melhor pinto em lugar inusitado", com fotos em jardins e dentro de carros, e a "Melhor conscientização de pinto", com nudes que contenham alertas sobre o coronavírus.

Os vencedores? Ganham motivo de se orgulhar e talvez una cosita más. "Pro meu concurso consegui apoio de pequenos empreendedores– tatuadores, marcas de bebida pequenas– para dar prêmio às nudes escolhidas pelo público", conta Sandra. "Eu mesma não estou ganhando um real com isso. Então não sei nem se terá segunda edição", completa. Melhor aproveitar então. A gente não vai para lugar nenhum mesmo. Ou pelo menos, não deveria.

Sobre o Autor

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre Comportamento Humano, Saúde, Tecnologia e Cultura Pop. Para encontrar as boas histórias que procura contar, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Trabalhou nas redações da rádio Jovem Pan, site Elástica, Revista Época e Revista Superinteressante - e agora colabora com o UOL.

Sobre o Blog

Sexo é o que há de mais antigo nesse planeta, e tecnologia nos traz o que há de mais moderno. Mesmo sem saber quem foi nosso antepassado mais antigo, dá para cravar: ele transava. Mas se engana quem acha que o sexo não mudou nada desde a primeira vez. A tecnologia evoluiu, e com ela nossos hábitos na cama (ou no chão, ou no celular...). Mas dá para juntar tudo, e divertir-se. Muito prazer, esse é o Sexting.